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Ecoturismo Mercosul
Desde: 07/07/2003      Publicadas: 46      Atualização: 08/03/2005

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 Ecoturismo

  04/10/2004
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A Arquitetura do Parque Nacional do Iguaçu

Uma crônica sobre a imposição do modelo urbanista Lerniano no Parque Nacional do Iguaçu


Jackson Lima

O turismo de Foz do Iguaçu e o Ibama perderam uma grande oportunidade de surpreender o turista. Surpreender ao turista significa ir além do que a simples obrigação exige do prestador do serviço. A TAM e a Varig são prestadores do mesmo serviço. As duas vendem “transporte” de passageiros. A TAM surpreendeu quando inventou o tapete vermelho. É um tapete que não custa muito. Brasília surpreendeu o mundo com a arquitetura de Oscar Niemayer.

A “revitalização” do “Parque” Nacional do Iguaçu criada para dar mais conforto e tranqüilidade ao turista perdeu uma oportunidade de surpreender. E especialmente na área arquitetônica. Os espaços construídos para atender ao turismo pós-revitalização, não surpreendem. São quase invisíveis. São espaços do não-aproveitamento do espaço. Não arrancam suspiros. Em uma época em que se fala de nova arquitetura, não se aproveitou a oportunidade de construir no PNI uma arquitetura que inovasse quer seja em conforto ambiental, uso de material alternativo de construção, fontes de energia alternativa ou que fosse simplesmente de um desenho que se mostrasse excepcional para ajustar-se a um lugar que a Unesco considera como possuidor de “valores universais excepcionais” como é o Parque Nacional do Iguaçu.

O Centro de Visitantes não tem nada de especial no que se refere à arquitetura. É um prédio que não surpreende. É uma arquitetura transplantada de Curitiba para o Parque Nacional do Iguaçu. É a arquitetura de uma época em que os mesmos arquitetos da onisciente equipe de um ex-governo espalharam o mesmo estilo arquitetônico nas bases náuticas de uma Costa Oeste abortada e natimorta. Uma Costa nonata. Presentes em todas elas, estão paredes grossas e solitárias que se elevam como monumentos. Tais paredes grossíssimas se encontram na entrada do Parque Nacional do Iguaçu, no Espaço Naipi, se encontram em Curitiba, se encontram por todas as partes desta escola de arquitetura de uso intensivo de energia elétrica, de materiais importados de outros climas e de hegemonia estadual.

São espaços fast-food. Espaços não feitos para o conforto. São espaços que não estimulam a permanência porque são espaços de passagem. São espaços modernos equivalentes àquelas áreas utilizadas em matadouros por onde as ovelhas ou bois são forçados a seguirem um caminho que leva à degola. É um espaço em que os turistas são empurrados como vacas, por espaços apertados na direção de uma loja. São espaços não-humanos ou pouco humanizados. No Espaço Naipi, uma parede grossa da arquitetura lerniana não só compete como, como rouba a cena das Cataratas. São espaços antidemocráticos e não só anti-humanos como anti-anatômicos.

A anatomia humana, desde que os humanos se ergueram e passaram a andar sobre dois pés como bestas bípedes e não quadrúpedes, homens e mulheres têm necessidade de se sentarem. Para isso é necessário cadeiras. Bancos. Lugares que incentivam o descanso. Aquela outra necessidade humana. Mas estas necessidades não podem ser satisfeitas no espaço da arquitetura erva-daninha que acaba de invadir o Parque Nacional do Iguaçu.
O Centro de visitantes tem um espaço amplo. Que lembra uma praça. E é tão pelado que nos remete ao deserto, ao terror do aquecimento global. Ali não há um banco. É como se o espaço aberto tivesse sido criado para refletir os raios infravermelhos e refletir qualquer outra espécie de raios para que as pessoas se sintam mal, tenham vertigens, queime-se-lhes os olhos e vão embora. É triste pensar que ali já houve selva.

O mesmo acontece nos outros “Edifícios Ambientais”. De ambiental, no sentido ambiental não tem nada. Banheiros, pias, iluminação, conforto técnico tudo comum, banheiros com descarga. E não tem nada de ambiental no sentido de criar ambiente para o cliente. Um lugar associado à palavra hospitalidade, que está associada ao conceito de turismo e hotelaria. A mesma coisa acontece nos edifícios ambientais para os esportes radicais implantados no parque. Assim, arquitetonicamente falando, o Parque Nacional do Iguaçu, perde uma oportunidade de se lançar como modelo digno de ser imitado e de fazer a diferença com uma arquitetura que surpreendesse o visitante e o surpreendesse pelos olhos, pelo coração, pela mente, por todos os sentidos e pela bunda, no caso das cadeiras e bancos. Que chegasse perto do Museu Paranaense que a onisciência arquitetônica de Curitiba teve a sabedoria de convidar Oscar Niemayer para fazer. Será o fim da arquitetura pública lerniana do Paraná? O que evita uma nota zero ao PNI é a rampa para cadeiras de roda que democratiza o acesso às quedas. Pelo menos algo humano foi feito. Pelo menos quando o elevador comece a funcionar.

Está tudo perdido? Não necessariamente. Mas para isso, o Ibama que é cúmplice neste crime de deformação da cara do Oeste do Paraná, pode correr atrás do prejuízo. O Plano de Manejo do Parque Nacional do Iguaçu sem a parte espúria do “Plano de Revitalização” tem todas as dicas. Onde ficaram as obras no Centro de Visitantes para serem usadas na educação ambiental, e interpretação da natureza? Onde estão os auditórios? Onde estão as salas de projeção? Onde estão os equipamentos de interpretação da natureza do Espaço Naipi? Onde estão a cultura, a interpretação da natureza, o setor da valorização da cultura e da natureza local? Onde está o software, a parte cabeça da visitação às Cataratas do Iguaçu? Para que serviriam estes espaços chamados centros de visitantes? O Plano de Manejo responde: “O objetivo do Centro de Visitante é facilitar a aproximação dos visitantes com os ambientes naturais e dos atributos culturais do Parque, permitindo que esses interiorizem o significado dessa área protegida, sua importância em termos de preservação, manejo e aproveitamento indireto dos recursos naturais e culturais”.

Enquanto nada acontece, celebremos a perda de uma grande oportunidade de fazermos a diferença e impressionar os visitantes com a arquitetura do Parque Nacional do Iguaçu. E celebremos a falta de transparência que permitiu que o mundo sequer saiba o nome do arquiteto que assina o projeto. Ele poderia ser nosso Niemeyer, Le Corbusier ou Paul Klee. Agora chegou a hora de humanizar o PNI para que ele cumpra sua função de preservação, recreação e educação (é aí onde entra o turismo). Por falar nisso, como se “e-duca”? Este é outro problema.

Jackson Lima



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